vamos falar do que dá certo?
ou sim, esse (também) é um post sobre a série de Cem Anos de Solidão, da Netflix 🦋
acredito que após seus primeiros oito episódios lançados, seja impossível já não cravar Cem Anos de Solidão como um sucesso da Netflix não somente como série, mas principalmente como adaptação. A série é derivada do livro de mesmo nome do escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez, autor premiado com um Nobel de Literatura pelo conjunto de sua obra em 1982 (não, não foi pelo livro, como muito pensam).
o susto com o anúncio da adaptação de Cem Anos para série de TV foi particularmente grande por boa parte da comunidade literária (e digo em breve porque a mim não me espanta tanto) já que a senhora Netflix atravessa um histórico não tão bem sucedido de adaptações, que apesar de caminharem mais pelo mundo dos animes, ainda sim não satisfazem em qualidade visual e adequação de roteiro. Os desafios que perpassam o enredo de Cem Anos para o formato de seriado, ao meu ver, são tão complexos quanto, já que falamos de uma obra que carrega consigo misticidade e características tão próprias do que chamam realismo mágico.
abrir um parênteses próprio para elaborar mais sobre as complexidades conceituais e, ao mesmo tempo, diversidades maravilhosas do realismo mágico é uma função que com certeza me encarregarei de fazer em outras segundas, mas o que é fulcral de já se saber aqui é que, em linhas gerais, o realismo mágico
é um estilo literário que combina elementos fantásticos ou sobrenaturais com descrições detalhadas e realistas do cotidiano, criando uma sensação de que o extraordinário faz parte da vida comum.
isso explica, por exemplo, porque Úrsula e José Arcadio não se assustam quando “ouvem” o bebê chorando dentro da barriga, ou quando observam a menina Rebeca e seu saco de ossos dançante, mas em contraponto, ficam totalmente fascinados com pedras de gelo e ímãs. São justamente os contrapontos entre o de fato fantasioso e o real que nos fazem pensar sobre a veracidade do que acontece mediante o que aquele mundo estabelece como fictício e/ou real.
também é importante ressaltar de pronto que esse conceito, até mesmo para a comunidade estudiosa das Letras, tem suas problemáticas, gerando até hoje discussões até mesmo entre os próprios autores. O certo seria mesmo “realismo mágico”?
como transmitir, portanto, essa essência tão complexa? Como ser convincente de uma realidade fantástica sem deixar de ser mágico? Eis um batia desafio.
quando digo que o susto em relação à adaptação de Cem Anos pela Netflix a mim não doeu, me refiro a esse lugar confortável que bem separa a adaptação cinematográfica/televisiva da obra literária há tempos. Diria até que de certa forma, estudar Literatura e Intersemiose na faculdade me abriu mais o horizonte de expectativa para a transformação artista em diferentes contextos. Claro que a empolgação de ver personagens queridos ganhando vida em carne e osso sempre me foi uma sensação muito feliz, e dependendo do anúncio de adaptação, certas expectativas eram geradas.
e acredito que é ai que reside a linha entre o bom trabalho do material-fonte e o respeito às diferentes perspectivas de arte. Explico.
sempre que penso nas melhores adaptações literárias para o cinema e/ou televisão (baseadas em minha opinião), algumas tomam lugar especial na poltrona. São elas:
Lisbela e o Prisioneiro (Peça de teatro de Osman Lins, escrita em 1964, que vira filme, em 2003, dirigido por Guel Arraes)
Senhor dos Anéis (Trilogia escrita por Tolkien publicada entre 1954 e 1955, que virou filme entre 2001 e 2003, levando ao todo 11 Oscars)
Game of Thrones (Que começou a ser publicado em 1996 e virou série em 2011. E calma, jovem gafanhoto. Sei que essa aqui gera polêmicas, mas para esse ponto, consideraremos apenas as três primeiras temporadas!)
obviamente que há várias outras poltronas com menção honrosa, mas que não caberiam ao todo no texto. A questão que trago para ilustrar é que independente inclusive de gosto pessoal, não há como negar:
a qualidade técnica dessas obras dentro de sua seara artística: roteiro, design de produção, figurino, edição, etc
o ÓTIMO uso do material-fonte: com alguns adendos importantes, já que em todos os casos, o material-fonte inclusive foi alterado; em Lisbela e o Prisioneiro, Inaura e Frederico Evandro são primos, não marido e mulher; o Mago Azul praticamente não existe no primeiro filme do Senhor dos Anéis e 90% da cantoria dos hobbits pela floresta é cortada (E AMÉM POR ISSO!). Ou seja, até as edições são bem escolhidas e respeitosas, acima de tudo.
o envolvimento parcial e/ou direto do/da autor/ra ou pessoas próximas no projeto.
foi assim com todas as obras citadas acima, e coincidentemente, foi assim com a série de Cem Anos de Solidão, que além de contar com os filhos de Gabo da produção executiva, também contaram com exigências mais particulares: a produção exigiu que a série fosse gravada na Colômbia, em espanhol, e com a maioria da equipe formada por colombianos e latino-americanos, incluindo o elenco. A equipe visitou 11 cidades e 32 vilarejos do país para construir a cidade fictícia de Macondo.
e foi nítido, quase como cristalino, perceber que isso fez total diferença.
isso me faz acreditar, portanto, que os desafios que envolvem adaptações de quaisquer tipos de arte precisam perpassar, às vezes de forma óbvia, mas consciente e reforçada, por esses fatores, e que já nos bastidores, é possível identificar as perspectivas de um projeto.
o que saiu de Cem Anos de Solidão, inclusive, só dá mais ansiedade de saber quando que esses outros oito episódios, já confirmados, virão, e como o desfecho, que já adianto, incrível da história de Macondo, nos será transmitido em grandes telas por grandes atores.
também acho de extrema importância falarmos sobre o que deu certo no mundo das adaptações, visto que o mais rememorado é sempre aquilo que mais adoeceu o coração do fã que esperou e muito por seus personagens representados de forma tão dolorosa (fãs mais recentes de animes que o digam). Acredito, inclusive, que vale a fé mais recente em produções adaptadas da Netflix, e que teremos com o que nos surpreender com os canais de streaming esse ano (principalmente colocando autores latinoamercianos em voga de novo). É desse jeito que queremos!
gostou do primeiro achego do Sílaba pra esse ano? Já te inscreve pra não perder mais nada. Toda segunda, temos um encontro.





Texto envolvente, com análise pessoal embasada e paixão pela obra juntas com conhecimento técnico. Você articula bem os desafios das adaptações, especialmente no contexto de um estilo literário tão singular como o realismo mágico. Boas comparações com outras adaptações bem-sucedidas e é arrazoado a importância da fidelidade cultural ao criar algo novo. Parabéns